Se até a IA escreve, por que você insiste?
Quatro minutos, 23 segundos. Seis minutos, 14 segundos. Dois minutos, um segundo. O que parece o prenúncio de uma explosão, na verdade, é a duração de muitos áudios que recebemos diariamente pelos aplicativos de mensagens. Isso para ficar nos mais comedidos. Porque já cheguei a receber áudios – corporativos – de 10 minutos. Dez torturantes minutos. Agora, pensem: o que a pessoa tem para dizer em 10 minutos; quiçá em seis, quatro, que não seja melhor por ligação, ao vivo ou por escrito?
O áudio, ainda que pareça facilitar, em especial a vida de quem envia, no fundo é uma grande arapuca. Falta, ali, o que fundamenta a boa comunicação: clareza, objetividade, concisão e, não raro, a própria informação em si.

Em geral, a pessoa que fala por mais de dois, três minutos em um áudio já se perdeu. Até hoje, não ouvi um que fosse decente, bem articulado, e que não pudesse ter sido resumido em um parágrafo, se o emissor soubesse exatamente o que quer dizer. Segundo, porque se está utilizando a ferramenta quase como uma bengala narcisista. Aquele momento em que eu, sem saber exatamente o que desejo, começo a divagar em torno de um tema, ouvindo a própria voz, tentando me convencer de algo e atormentando os demais.
Percebam que não estou amaldiçoando o áudio, que em casos ligeiros cai muito bem. É o recado quando se está em deslocamento; uma resposta rápida que sabemos não poder deixar para depois; uma informação breve. Até uma espécie de pingue-pongue funciona por áudio. Eu mando daqui, você responde daí e afinamos uma ideia entre um áudio e outro. Até aí passa. Porque estamos ambos na mesma sintonia. Não combinamos explicitamente, mas existe, nas entrelinhas, um acordo que permitiu o tipo de diálogo. Aquele bate-rebate gostoso.
Agora, aquele áudio que chega como um torpedo, já causando dissabores antes mesmo de ser acionado, podemos sempre transformar em texto. E não venha me dizer que não deu tempo ou existe a transcrição. Porque o problema não é transcrever. O mal é a desarticulação que o áudio carrega, a falta de compreensão, de objetividade. Aquela sensação de dissabor que causamos no outro, que na metade da escuta já não sabe mais o que está ouvindo.
Se até a IA, veja que ironia, que você usa para tentar se entender e entender melhor o mundo, na elaboração de e-mails, relatórios, projetos, por padrão responde por escrito, por que raios você insiste em mandar áudio?
Se até a máquina do momento reconhece que a escrita oferece maior capacidade de entendimento, e que a responsabilidade de se fazer compreender é de quem envia a mensagem – como é bom voltar à teoria da comunicação – talvez a gente devesse parar de terceirizar ao outro o que nem a IA adotou. O áudio parece ser até o novo cigarro. Tolerado, é. Mas cada vez mais deselegante. Ainda mais em ambiente fechado.
