Setenta anos depois de nascer, Grande Sertão: Veredas nos faz uma pergunta que a escola nunca formulou direito: a que livros devemos uma leitura de verdade?
Quem estuda ou estudou, sabe. É lá pelos 16 anos, por vezes até antes, que nos é apresentado Grande Sertão: Veredas. Afinal, cai no vestibular. A turma suspira, entre o dever e o pavor. Na minha época, não tinha muito o que fazer. Era ler e pronto. Hoje, temos os resumos. E é por eles que se vai, se é que se vai. Eu li Guimarães Rosa. Com essa idade. O livro, grosso, já na primeira frase diz: “Nonada.” E por vezes no nada ficamos.
Uma linha sozinha, e fui seguindo, sem entender muito bem. Fiz o resumo, passei, caiu no vestibular, acertei. O livro seguiu na biblioteca de casa. E na prateleira da memória. São coisas que os clássicos sabem fazer muito bem. Eles simplesmente existem, sem pressão. Ali estão. Como a dizer: quando você estiver pronto, eu estarei aqui. No fundo, os grandes autores e seus livros sempre sabem. Na hora que o leitor conseguir, ele vai abrir e se deleitar. Como o mestre, que quando o discípulo está pronto, simplesmente aparece.
Setenta anos, sem rugas

Grande Sertão: Veredas completa 70 anos em 2026. João Guimarães Rosa publicou o romance em 16 de julho de 1956, e o que saiu naquele dia foi uma ruptura. Uma língua inventada a partir de outra língua. Um sertão que era metáfora, memória e filosofia ao mesmo tempo. Uma pergunta sobre o diabo, sobre o amor, sobre a honra, sobre o que é ser humano quando não há mais regras para seguir em uma terra sem lei. Riobaldo, o narrador-jagunço que conduz mais de 500 páginas em monólogo quase ininterrupto, é também personagem, mas acima de tudo estado de espírito.
A efeméride mobilizou o país. A Companhia das Letras lançou edição especial com projeto gráfico diferenciado, uma entrevista histórica de Guimarães Rosa ao jornalista alemão Gunter Lorenz em 1965 — reencontro raro com a voz do próprio Rosa sobre sua obra — e depoimentos inéditos de escritores contemporâneos que o livro formou: Mia Couto, Milton Hatoum, Itamar Vieira Junior, Eduardo Giannetti, Bia Lessa. Vozes de mundos diferentes, todos dizendo a mesma coisa com palavras distintas: este livro me mudou.
Na Bienal do Livro de São Paulo, que encerrou agora no dia 13 de setembro a 28ª edição, a maior da história do evento, uma mesa celebrou os 70 anos com Mia Couto, a atriz e escritora Bruna Lombardi, e o crítico literário Italo Moriconi. Bruna não chegou à Bienal apenas como convidada ilustre: ela chegou com Diário de Grande Sertão, livro que reúne textos e imagens nascidos de sua relação com a obra. Foi em 1985 que Bruna se tornou Diadorim.
Eu tinha 15 anos, e lembro da minissérie.
Diadorim, para sempre
A TV Globo produziu a minissérie Grande Sertão: Veredas em 1985, 25 capítulos, com direção de Walter Avancini e Tony Ramos como Riobaldo. Bruna Lombardi interpretou Diadorim. Para a função, treinou três meses: tiro, faca, doma de cavalos selvagens, preparação física pesada. Quem assistiu àquela minissérie não esqueceu mais. Diadorim entrou em nossas casas, trazendo o Grande Sertão para dentro de nós, habitando a memória coletiva de uma geração. A Globoplay disponibilizou a série completa em junho deste ano. Aliás, se tem coisa que a Globo sabe fazer bem, é minissérie. Rever nos mostra o quanto os bons trabalhos são perenes.
O que os clássicos sabem que a gente demora a aprender
Calvino escreveu que clássico é aquilo que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Grande Sertão: Veredas tem 70 anos e ainda está falando. Sobre o Brasil, aquele sertão que “é o mundo”, como Guimarães Rosa escreveu, ainda que o mundo de hoje seja diferente. Sobre o bem e o mal, que em suas páginas não moram em lados opostos, mas no mesmo peito. Sobre o amor que não ousa se nomear. Diadorim, Reinaldo, Riobaldo. Sobre lealdade, traição, a responsabilidade de escolher.
O crítico Italo Moriconi, que lançou também neste ano pela Editora Autêntica o guia Para ler Grande Sertão: Veredas, começa o livro com um diário da sua própria primeira leitura completa da obra, como se reconstituir o espanto fosse a única entrada possível para ajudar outro leitor a atravessá-lo. É um gesto bonito e honesto. Diz que o livro não intimida menos com o tempo. Intimida diferente.
Para início de 2027, chegam as novas traduções que prometem reposicionar o romance no cenário internacional: a versão em inglês de Alison Entrekin, que trabalhou no projeto desde 2014 e criou o neologismo Vastlands: The Crossing para o título, e a tradução alemã de Berthold Zilly, concluída após 15 anos de trabalho. Quinze anos para um só livro. Para termos ideia do tamanho da empreitada.
O que ela quer da gente é coragem
Riobaldo, perto do fim de sua longa conversa com o leitor, diz uma das frases clássicas da literatura brasileira. Mesmo quem nunca abriu Grande Sertão: Veredas, em algum momento da vida se depara com ela: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
Com 15, 16 anos, você lê essa frase e segue em frente. Com 40, 50 e tantos, para. Afinal, já se aprendeu que “viver é muito perigoso”. E que coragem é o mínimo que podemos ter.
Se você não releu Grande Sertão desde a escola, ou se nunca o terminou de verdade, este é o momento para essa travessia. Não pelo aniversário, ainda que as datas sempre nos façam refletir, mas porque talvez seja a hora de o livro fazer sentido. Sem a obrigação da escola.
A edição especial de 70 anos está nas livrarias. O guia de Moriconi é um companheiro útil para quem quer entrar no texto sem se perder nos primeiros cem quilômetros de sertão. E, para quem preferir começar por algo mais palatável, a minissérie de 1985, na Globoplay, ainda nos encanta, resistindo ao tempo com dignidade.
O livro mesmo, esse, não tem substituto.
