Uma regra da infância que aprendi com meu pai e que o tempo prova estar certa
Muitos dos que me leem sabem o significado de ter telefone em casa nas décadas de 70, 80. Hoje, com cada um tendo seu próprio aparelho, soa inimaginável o conforto que era ter uma linha própria. Um luxo que meu pai, o Desamoroso, fazia usar com total parcimônia. Não porque a fila era grande entre os irmãos para ligar para amigos, namoradas e namorados, ou porque a mãe queria notícias das irmãs e pais distantes. Mas porque ele simplesmente achava que o telefone era uma invasão à privacidade. Olha o quanto ele estava correto!
Como tínhamos sempre negócio junto com a casa – no geral o laboratório da mãe ocupava o térreo e nós morávamos no andar superior – sempre fomos os privilegiados com telefone. A regra era clara: naqueles tempos bicudos, de milagre econômico, os negócios vinham primeiro. Penso que ainda permaneça, não? Então, tínhamos a tal da extensão.
Claro que em nome do business, mas principalmente da boa educação, ninguém podia ligar a qualquer hora. E ai daquele ousado que decidisse nos chamar nos horários impróprios. Era execrado e elogiado de todos os adjetivos possíveis.

Para o Desamoroso, e assim aprendemos, funcionava assim: antes das 9h, ninguém liga; entre as 11h e as 14h, também não; e depois das 18h30, muito menos. Nos finais de semana, então, só em caso de morte.
Era sensacional! Porque justamente os horários que não eram comerciais – ou seja, que o telefone não estava à disposição do laboratório – e que poderíamos fazer uso dele, não podíamos. Muito bom! No início até havia alguma reclamação, mas nos acostumamos. E se não ligávamos, também não queríamos que ninguém ligasse, atrapalhando nosso sossego. Líamos, ouvíamos música, assistíamos televisão, cozinhávamos, brincávamos, conversávamos, limpávamos a casa, organizávamos nossas coisas. Passeávamos – mas não na casa dos outros (essa história é para outra crônica!).
Agora pensem que delícia transpor essa prática para nosso mundo moderno. Se ninguém nos mandasse mensagens antes das 9h, entre as 11h e as 14h, depois das 18h30. E tampouco aos finais de semana. Não seria uma delícia? Alguns incautos podem dizer: “Mas Dani, temos que trabalhar, os negócios precisam de agilidade, os amigos querem conversar, a comunicação é instantânea!”. Tudo bobagem. À exceção dos médicos e plantonistas, tudo pode ser resolvido em horário comercial.
E, se por acaso, veio aquela ideia maravilhosa à noite, na madrugada, e você insiste em compartilhar com a vítima que precisa responder – a maioria das vezes subordinada, porque parece que a hierarquia por vezes promove a estupidez –, mande a mensagem só para você! Ai, que elegante. No dia útil seguinte, depois das 9h, encaminha para o outro dar providências.
O Desamoroso, mais uma vez, estava certo.
