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Repertórios

Arrumar por fora, acomodar por dentro: os 5S japoneses no armário

por Miricis By Dani Goulart
24 de setembro de 2026
em Casa & Hospitalidade, Inteligência Interior

Criado no Japão do pós-guerra para limpar fábricas, o método dos cinco sensos ensina a separar o que serve do que já deu, no cabide e fora dele

A vida é um eterno desenrolar. E quando os nós parecem tão apertados, tão encruados, seja pelo tempo em que estão feitos, seja pela forma com que foram construídos, uma das coisas que mais me ajuda a organizar o caos é arrumar os armários. O verdadeiro faxinão da estação. Aquele em que fazemos a curadoria do que presta, do que não presta. Do que serve, do que não serve. Do que vai embora. Do que fica. E do que precisa chegar para nos compor novamente.

O processo é sem dúvida terapêutico. Curadoria não tem a mesma etimologia de cura à toa. Quando elencamos aquilo que achamos relevante, importante, nos curamos. São muitos os livros e os personal organizers que nos ensinam como selecionar o que queremos para nosso armário.

Eu, uma virginiana de carteirinha, estou sempre à procura de formas de organizar melhor, de limpar, de jogar fora o que não presta mais. De arrumar por uso, por estilo, por cor. De ir coletando nossas Miricis, nossas migalhas, e colocando-as nos devidos lugares.

Do chão da fábrica ao cabide

Nesse processo, acho muito interessante buscar na indústria, onde passei mais de 10 anos da minha carreira, os cinco sensos de organização japoneses. Os 5S são um método japonês de organização do ambiente de trabalho, identificado como uma das técnicas que tornaram possível a produção just-in-time. Surgido no pós-Segunda Guerra Mundial, veio para limpar a sujeira das fábricas. No início, eram só três sensos; os outros dois vieram depois.

O nome vem das cinco palavras japonesas que o compõem, todas iniciadas pela letra S: seiri, seiton, seisō, seiketsu e shitsuke.

O que a roupa guarda

Transpondo para nosso armário, mas não restringindo a ele, o método é bom, porque é muito fácil a gente se perder no emaranhado de roupas – e de sentimentos que elas nos provocam.

É o desejo de retomar um corpo que já não nos cabe mais; o estilo do que já passou; a memória afetiva que fica ali, fazendo morada no cabide, enquanto a vida está dizendo: vai, minha filha, vai! Essa roupa – e essa pessoa que tu insistes em manter – já deu!

O início de estação é sempre motivo para colocar a mão na massa e ajeitar tudo direitinho. Eu adoro! A gente ajeita por fora enquanto as coisas vão se acomodando por dentro.

É como conta Isao Yoshino, que entrou na Toyota em 1966: o carpinteiro japonês, ao terminar o dia de trabalho, afia a lâmina da plaina que usou o dia inteiro.

Os cinco sensos, um a um

Senso de utilização (SEIRI 整理)

Na indústria, a gente separa o que é necessário do desnecessário. Bora fazer isso com nossas roupas, sapatos. O que não se utiliza mais, deve ser descartado (doado, jogado fora, vendido). Nessa hora é sem apego: de nada adianta guardar aquela roupa de 10 anos atrás, que nada mais significa neste momento de vida!

Senso de ordenação (SEITON 整頓)

Coloque cada coisa no seu lugar. A separação por áreas (vestidos, sapatos, camisas etc.), estações, ambientes (trabalho, lazer, academia) deixa tudo fácil de ser visualizado. Você perde menos tempo e realmente vê o que tem à disposição, otimizando suas roupas.

Senso de limpeza (SEISŌ 清掃)

Tem roupa manchada? Manda lavar! Sapato para arrumar? Manda consertar. Gavetas com acúmulo de bagunça? Vá ajeitar. Camisa sem botão? Vá costurar. Nada pior do que buscar uma roupa no armário e ela não estar em condições de uso.

Senso de padronização (SEIKETSU 清潔)

Camisa combina com camisa, verão combina com verão, calça com calça, vestido com vestido e por aí vai. Melhor ainda se conseguirmos ir por cartela de cores. Aí sim a coisa começa a ficar bonita!

Senso de autodisciplina (SHITSUKE 躾)

Deixou tudo organizado? Mantenha! Nada de colocar algo fora do lugar. Para estabelecer novos hábitos, o melhor é a disciplina.

A beleza como critério

O kanji – o ideograma – de shitsuke particularmente me encanta. A Japan Intercultural Consulting aponta que ele combina, à esquerda, corpo, eu, alma ou mente; e, à direita, beleza. A palavra designa treino ou disciplina, especialmente na educação, mas sobretudo a autodisciplina, aquela interiorizada, automotivada, que substitui a disciplina externa à medida que amadurecemos.

Veja o quanto disciplina tem a ver com beleza, com estética, com harmonia. À medida que nos educamos, apuramos. Lembro de uma influencer britânica, daquelas que passam pelo feed e depois desaparecem sem que a gente siga – talvez não merecesse mais do que isso mesmo, uma scrollada. Mas ela afirmava, no que acompanhei: eu decidi não usar mais nada que me deixe feia. Eu achei de uma precisão de critério fantástica.

Porque se eu decido estar sempre bonita, de uma forma disciplinada, com a estética vem a ordem. E tudo se organiza.

Crédito: imagens gerada por IA

Tags: 5Simagem pessoalorganizaçãopersonal branding
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