O que uma bronca de pai ensina sobre os papéis que ocupamos em cada relação
O Desamoroso sabia educar como ninguém. Ainda que eu, criança, por muitas vezes não tivesse muito claro o que acontecia na relação entre pais e filhos – caçula, pouco sobrava para mim –, eu sempre sabia quando o caldo ia entornar. Imagine: eu, a menor; os cinco mais velhos, uma escadinha bem acima de mim – todos adolescentes ou iniciando a vida adulta. Que cenário! Nestas ocasiões, tinha duas expressões que o pai dizia que tremiam as bases. A primeira, da qual cheguei a ser vítima, era o “Te fecha”. A segunda, que eu só olhava e discretamente corria para meus brinquedos, era o “Te ponha no teu lugar”. Eram matadoras!
O “te fecha”, entredentes e com o E fechado, como manda o bom português, era básico e definitivo. Um calar a boca de profunda elegância. Não havia o que contestar. Era encolher o rabo, ficar quietinho e se mandar, rezando para ser esquecido. Agora, o “te ponha no teu lugar”, esse aí eu ficava horas pensando. A primeira coisa que me surgia era: Que lugar era esse, qual o lugar? E, a segunda, como é que a gente se coloca lá? Aquilo dava voltas na minha cabeça.
Porque ele não mandava os mais velhos irem para o quarto, de castigo, tampouco dizia que não podiam fazer algo que estavam pleiteando. Era outra coisa. Era um definir que não surgia apenas dele. Mas da consciência que o outro (nós, eles, no caso) tinha que desenvolver para saber qual o seu lugar. E isso, hoje percebo, trouxe uma grande lição.
Porque acontece na relação entre pais e filhos, acontece na relação entre líder e liderado, entre professor e aluno. Entre pessoas, entre nós, o tempo todo! Ali, por certo, ele estava querendo dizer que não havia o que discutir, uma vez que ele era o pai; o outro, o filho. A relação era muito clara. E dentro dessa dialética havia hierarquia, posicionamento, obediência, uma série de pressupostos que estão dados. Como em qualquer relação. O problema que ele trazia à tona, que ele nos alertava com esse “te ponha no teu lugar”, era que no embate não estávamos sabendo qual o nosso lugar. Achávamos – eu não, posto que era querida e obediente! Rsrs – que éramos iguais ou, ainda, superiores a ele.
E, na vida adulta, por muitas vezes também achamos, nos perdemos e perdemos o escopo da relação. Somos iguais como pessoas, como inteligências, como seres humanos. Sem dúvida. Mas na relação entre sujeitos, temos que saber o nosso lugar. É superior? É inferior? É igual? Qual o escopo da relação que se estabelece? E qual o papel que exerço dentro desse escopo? Esse era o convite do Desamoroso! Agora me digam: esse homem não era um encanto?
O que significa “se pôr no seu lugar” numa relação?
Não é se diminuir. Somos iguais como pessoas, como inteligências, como seres humanos. Mas toda relação tem um escopo e papéis definidos. Saber o seu lugar é reconhecer que papel você exerce dentro dela.