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Repertórios

Para ir à Sardenha com a Boccati, não basta querer. Tem que ganhar

por Miricis By Dani Goulart
10 de agosto de 2026
em Cozinha & Vinho

Cada edição do projeto Vini Fatti a Mano leva um grupo seleto à origem dos vinhos. Neste ano, a eleita é a Sardenha. São 300 caixas numeradas. E dois sortudos

Tem gente que, quando descobre o projeto Vini Fatti a Mano da Boccati, pergunta logo se pode pagar para ir junto. A resposta de Julio D’Agostini, fundador da empresa, é sempre a mesma, com aquele sorriso levemente divertido de quem já ouviu isso tantas vezes: “Não tem como. Só vai quem for sorteado.”

É exatamente esse o charme. Como já contamos na matéria sobre a Boccati, o projeto nasceu em 2021 de uma conversa entre Julio e André Roso, proprietário da Mondoroso, importadora especializada em pequenos produtores italianos. A ideia era simples e ousada ao mesmo tempo: montar uma caixa com vinhos raros, de produção artesanal e pequena escala, e dar a quem comprasse a chance real de conhecer de onde vinham. Não como brinde. Como sorteio. Com passagem, hospedagem, roteiro enogastronômico e tudo pago. “O pessoal insiste que quer ir, que paga o que for, mas não tem como. É uma exclusividade, só vai se for sorteado”, conta Julio.

Em 2026, a região escolhida é a Sardenha. E o produtor, Giuseppe Sedilesu.

Conheça a caixa Selezione

São 300 caixas numeradas, cada uma com cinco vinhos de Giuseppe Sedilesu, expressões puras das uvas Cannonau e Granazza cultivadas em Mamoiada, no coração da Barbagia. Vinhedos de altitude, sistema tradicional alberello, agricultura orgânica, vinificação natural e uso mínimo de sulfitos. Rótulos que transitam entre potência, elegância, frescor e longevidade, cada um fiel ao caráter do território.

A caixa vem em duas versões: areia, inspirada nas praias da Sardenha, ou pinus natural, em estética clássica. As duas acompanham um cooler térmico exclusivo Boccati para manter o branco em temperatura ideal. Tudo personalizado, tudo numerado. R$ 3.200,00 à vista ou R$ 3.400,00 em até seis parcelas. E o direito de concorrer a uma viagem com tudo pago para dois. Falta pouco para o sorteio, que acontece no dia 24 de agosto. Serão dois ganhadores, cada um com direito a levar um acompanhante.

A vinícola Giuseppe Sedilesu

Há mais de 40 anos, o vinho acompanha a história da família Sedilesu, enraizada na tradição e na proteção da terra como bem comum.

Hoje a vinícola que leva o nome do seu fundador (foto à esquerda) é administrada por Salvatore Sedilesu e sua família. São 20 hectares de vinhedos, aproximadamente 100 mil garrafas por ano, participação ativa na associação Mamojà, que trabalha para valorizar e preservar a região por meio do vinho, e presença tanto na Rota do Vinho Cannonau quanto na primeira Rede de Enoturismo da Sardegna.

Veja o roteiro

De 25 de outubro a 1° de novembro de 2026, os ganhadores e acompanhantes viajam com a equipe de sommeliers da Boccati e as diretorias das duas empresas. São oito dias de foco total em produto, conhecimento e um roteiro planejado para uma verdadeira imersão na cultura, história e sabores da Sardenha.

A viagem começa com embarque em São Paulo, conexão em Roma e travessia noturna de ferry pela Moby Lines até Olbia, com jantar à la carte a bordo e Piano Bar no show lounge do navio. Um jeito elegante de já entrar no ritmo.

Na terça, 27 de outubro, após o café da manhã durante a chegada à ilha, o grupo segue para Mamoiada, cerca de uma hora e 45 minutos de Olbia no coração da Barbagia. O dia começa com almoço harmonizado em formato vertical na vinícola e inclui visita aos artesãos que produzem as máscaras dos Mamuthones e Issohadores, símbolos ancestrais da cultura local. Os Mamuthones usam pesados chocalhos e máscaras negras de madeira para afastar os maus espíritos, enquanto os Issohadores vestem camisas vermelhas e máscaras brancas. A noite encerra com jantar harmonizado, de volta à Giuseppe Sedilesu.

Na quarta, 28 de outubro, caminhada pelos vinhedos de Cannonau ao amanhecer. Almoço harmonizado entre as videiras, no Murruzzone. À tarde, visita ao ateliê do Artigiano delle Maschere e ao Museu das Máscaras Mediterrâneas, em Mamoiada. Mais um jantar harmonizado para fechar o dia.

Na quinta, 29 de outubro, a rota leva a Olzai, para visita a produtores artesanais de queijo com degustação e harmonização. Depois, passeio pelo vilarejo semiabandonado de Lollove, membro do clube das aldeias mais bonitas da Itália, com ruas íngremes de paralelepípedos e casas de pedra cinza onde reina um silêncio que evoca contos antigos. Jantar harmonizado em Monteortobene, em Nuoro.

Na sexta, 30 de outubro, acontece o dia mais cinematográfico do roteiro. O grupo embarca em uma goleta (navio a vela) de mogno de 20 metros no porto de Arbatax para uma excursão exclusiva pelo Golfo di Orosei. A navegação passa pela Isola d’Ogliastra, pelas agulhas de Punta Giradili, pelas cavernas Grotta dei Colombi e Grotta Azzurra, até os fiordes do Golfo. Parada para banho em Cala Goloritzé. Almoço a bordo com vinhos Sedilesu. À tarde, traslado para Cagliari, check-in no Boutique Hotel Carlo Felice e jantar no Ristorante ChiaroScuro.

No sábado, 31 de outubro, manhã livre em Cagliari para explorar a cidade. Almoço no tradicional Mercado San Benedetto e voo de volta ao Brasil.

Informações práticas

Além de comprar a caixa e ficar na torcida, você vai precisar de muito pouco. As passagens são em classe econômica com bagagem de 23 kg e, claro, são emitidas após o sorteio. Quer ir com mais conforto? Só pagar pelo upgrade, se disponível. Como documento, só passaporte válido por no mínimo seis meses após o retorno.

O clima vai estar excelente – já passou um tanto do calorão e varia entre 14 e 22°C durante o dia, com possibilidade de chuva. Roupas ao melhor estilo cebola (vai tirando as camadas) e calçado confortável são os mais indicados. E, vai, um pouquinho de charme para a noite!

Sardenha: três coisas que você não sabia e vai querer contar

A Sardenha tem praias que roubam o fôlego e vinhos que ficam na memória. Mas o que a torna verdadeiramente singular está em camadas mais fundas, que a maioria dos turistas passa sem ver.

A ilha que Roma não conseguiu dobrar

A Barbagia, a região montanhosa do centro da ilha onde fica Mamoiada, é a única área da Sardenha que resistiu à dominação romana. Os romanos chegaram, ocuparam as costas e as planícies, mas a Barbagia nunca se rendeu. Chamaram seus habitantes de bárbaros, não por serem primitivos, mas por serem insubmissos. O nome ficou.

Esse isolamento de séculos não é detalhe histórico. Ele explica por que a região preservou língua, rituais, gastronomia e uma forma de viver que não foi assimilada por nenhum conquistador. E explica, em boa medida, por que os vinhos de Giuseppe Sedilesu têm o caráter que têm: vêm de uma terra que nunca precisou agradar ninguém.

O ritual mais antigo da Europa ainda em prática

Os Mamuthones e Issohadores de Mamoiada não são personagens de carnaval. São figuras de um ritual cuja origem é anterior ao Cristianismo, provavelmente ligada à civilização nurágica, que habitou a Sardenha mais de mil anos antes de Cristo. Uma das manifestações culturais mais antigas ainda praticadas em todo o continente europeu.

Os Mamuthones carregam nas costas dezenas de quilos em sinos de bronze, curvados pelo peso, com o rosto coberto por uma máscara negra de madeira esculpida à mão. Os Issohadores, de máscara branca, capturam espectadores com um laço. A cena é perturbadora, fascinante e completamente fora de qualquer referência que um viajante ocidental costume ter. Interessante que o espetáculo não tem como público os turistas. É local, há séculos.

O vinho dos centenários

A Sardenha integra o grupo das Blue Zones, as cinco regiões do planeta onde as pessoas vivem mais e com mais saúde. Na Barbagia e na Ogliastra, a concentração de centenários masculinos é uma das maiores do mundo, o que há décadas atrai pesquisadores de longevidade.

Entre os fatores estudados está o Cannonau di Sardegna. O vinho produzido com essa uva tem níveis de flavonoides significativamente mais altos do que a maioria dos tintos europeus. Os homens da região bebem um a dois copos por dia desde sempre, sem protocolo nem consciência de saúde: é costume. O que a ciência tenta explicar, eles simplesmente vivem.

Não por acaso, é exatamente esse o vinho que a Boccati e a Mondoroso escolheram para a Selezione Sardegna 2026.

Fotos: Divulgação

Tags: boccatienogastronomiaenoturismomiricismiricisbydanigoulartsardenhavinhosvinifattiamano
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