Há muitos adjetivos que fazem de um empresário um homem vencedor. Um deles certamente está em ser coerente com o próprio projeto. Na época em que nem se falava em influenciadores, a Serra gaúcha e, na sequência, o Brasil, viu surgir uma das grandes personalidades formadoras da cultura enogastronômica no país. Eu tive o prazer de ver nascer essa história. Aqui, não estamos falando de chefs renomados, tampouco de criadores de conteúdo que ocupam as redes sociais. Estamos, sim, contando a trajetória do empresário Julio D´Agostini, de Caxias do Sul. O fundador da Boccati celebra mais de 30 anos de uma vida dedicada a formar apreciadores de vinhos nacionais e importados.
Julio é figura rara. Dono de uma visão clara de negócio, constituiu a Boccati piano piano, mas com a velocidade de quem sabe ler o mercado onde se insere. Eu o conheci por volta dos anos 2000. Nossa primeira entrevista foi para uma reportagem para a coluna de Gastronomia no jornal Pioneiro. Ele, como a vislumbrar o que a Boccati viria a ser, inaugurava o espaço que se chamava Boccati – Vinhos, Queijos e Gastronomia, o embrião do tanto que o negócio representa hoje, 25 anos depois.
Então distribuidor exclusivo dos produtos Rasip e Granformaggio, Julio foi pioneiro em vários aspectos. Mais do que unir cozinha e vinho, promovendo almoços e jantares harmonizados, ele sempre teve a convicção de que o mercado só se desenvolve se o consumidor for educado, se tiver acesso ao que há de melhor no mundo, se evoluir o paladar e o estilo de vida. À seleção dos melhores vinhos, Julio agregou o que ele chama de acompanhamentos do vinho, divididos em duas vertentes: a fabricação de produtos próprios, focados no mercado vinícola e corporativo, e produtos importados das melhores marcas mundiais, capazes aprimorar a experiência do apreciador.
“Sempre tive essa convicção, de que precisamos aprender, formar, saber apreciar.” A lição, Julio começou por casa. Ele não contratou sommeliers para capacitar a equipe a indicar produtos, a fazer o serviço do vinho, a buscar a harmonização ideal ou a oferecer o acessório perfeito. Ele formou a equipe. Na Boccati, todos que se relacionam com o cliente são sommeliers. “Eu quero formar gente aqui dentro; tá difícil de formar o jovem, mas quando eles vêm, gostam e ficam; claro que dá divergência, mas a divergência nos ensina.”
Acostumado às flutuações do mercado, Julio reconhece que o negócio independe dos outros ou da conjuntura econômica. “Eu estou muito contente com a Boccati, porque a gente está sempre dando novas ideias, seja de como fazer eventos, de como criar produtos; e não é porque eu dou a ideia que as coisas vão bem, é porque a turma sabe executar bem.” Ele cita como exemplo ações voltadas para os guias de turismo, para as secretárias, para os garçons – diferentes públicos formadores de opinião. “Eu preciso que as pessoas nos conheçam, trazer gente aqui para dentro, e isso se faz com boas ações, com conhecimento, com cursos, assim vamos criando a cultura.”
Um dos primeiros passos na formação de apreciadores foram os circuitos enogastronômicos, eventos onde são apresentados diferentes rótulos de determinado país ou região, possibilitando que os participantes interajam diretamente com os produtores e sommeliers. A estreia, em 2014, foi focada nos vinhos brasileiros.
Hoje, 12 anos depois, a Boccati já passou pelas grandes regiões vitivinícolas do mundo, selecionando produtores e apresentando o que há de interessante na produção de Espanha, Itália, França, Portugal, Califórnia, América, Argentina, Chile, África do Sul e por aí vai. Tudo acontece nas adegas subterrâneas que comportam mais de 3,8 mil rótulos e cinco diferentes espaços de eventos.
Além da loja física, que se expande – me surpreendo com quantos túneis e espaços ainda são possíveis de serem descobertos – a Boccati vende pelo e-commerce para todo o Brasil.
Vini Fatti a Mano
Ainda que os circuitos sigam formando e qualificando apreciadores, foi pela insistência de Julio que a Boccati tem hoje um dos seus produtos mais cobiçados, as caixas Selezione Boccati. “Eu devia estar iluminado quando tive essa ideia”, afirma, entre orgulhoso e brincalhão.
Disposto a ter algo diferenciado para apresentar aos clientes, Julio contatou diferentes importadoras, em busca de um parceiro ideal – “ninguém me deu muita bola”. Foi na conversa com André Roso, proprietário da Mondoroso, importadora focada nos pequenos produtores italianos, que o projeto Vini Fatti a Mano (vinhos feitos à mão) tomou corpo, em 2021. A grande sensação não está apenas em ofertar uma caixa selecionada de vinhos ímpares, produzidos em pequena escala e de forma artesanal. O admirável mesmo é que cada comprador da caixa concorre a uma viagem à região de origem dos produtos, com a equipe de sommeliers da Boccati, diretorias tanto da empresa brasileira como da Mondoroso, e ainda pode levar acompanhante. “O pessoal insiste que quer ir, que paga o que for, mas não tem como. É uma exclusividade, só vai se for sorteado”, diverte-se Julio.

A dinâmica é sensacional. Neste 2026, está selecionada uma única região, a Sardenha. São 300 caixas numeradas com exemplares elaborados por Giuseppe Sedilesu, produtor de referência na comuna de Mamoiada, reconhecido internacionalmente pela autenticidade de seus vinhos. Os rótulos refletem fielmente o caráter do território, com vinhedos de altitude cultivados no tradicional sistema alberello, práticas de agricultura orgânica, vinificação natural e uso mínimo de sulfitos.
Os vinhos que compõem a Selezione Sardegna são expressões puras das uvas Cannonau e Granazza, com exemplares que transitam entre potência, elegância, frescor e longevidade. A caixa que abriga a seleção, concepção da Boccati, integra o pacote. Ela está disponível em duas versões: areia, inspirada nas maravilhosas praias da Sardenha, ou em pinus natural, em uma estética clássica. Ambas acompanham um acessório exclusivo Boccati (um cooler térmico para manter o vinho branco em temperatura ideal para o consumo), reforçando o caráter colecionável. Tudo personalizado, um dos diferenciais que marca a Boccati desde o princípio.
Para Julio, proporcionar a viagem para os sorteados é algo de fantástico: “São dias sensacionais, em que somos recebidos com toda hospitalidade e carinho, em regiões fascinantes. Ainda que a viagem seja de sonhos, eu digo que não é luxo, é foco em produto, conhecimento, gente. É inacreditável”.
Taças e acessórios

Tão surpreendente quanto as viagens que Julio D´Agostini criou é o quanto ele tem apresentado ao mercado brasileiro em termos de taças de cristal e acessórios para o vinho. Distribuidor oficial no Brasil das taças e decanters austríacos Riedel, a Boccati apresenta ao consumidor nacional produtos que aprimoram o saber fazer.
À provocação de um cliente, tido como grande conhecedor de vinhos, que ao degustar nas taças Riedel expressou que não sabia se só tinha tomado vinhos simples demais ou se nunca soube beber, Julio atesta: “A Riedel é a melhor do mundo; eles desenvolveram uma taça para cada tipo de vinho; e não é tinto, branco, rosé, espumante; é Merlot, Cabernet Sauvignon, Bordeaux, Pinot Noir, Barolo, Shiraz, Riesling, Rosé Wine, cada um com sua especificidade. Ela extrai o que há de melhor no produto, porque o formato do bojo e a abertura da boca conduzem o vinho para a parte correta do palato, onde ele revela todo potencial.” Uma das degustações mais apreciadas na Boccati é tomar o mesmo vinho em diferentes taças – “os clientes ficam fascinados”.
A seleção do mix de produtos importados passa por uma curadoria criteriosa. “Nós vamos buscar o melhor onde quer que ele esteja, pode levar anos de negociação.” Braço direito de Julio e radicada na Europa, a filha Eduarda D´Agostini está à frente da seleção de marcas como Koala, Pulltex, WAF, Stöltze, Cheer, Arcoroc, entre outras. O critério resume-se a uma combinação de fatores que unem identidade, qualidade, design, ergonomia e diferenciação, em prol da experiência do apreciador.
Cor e descontração


Parte da essência da Boccati e que a catapultou ao mercado nacional e internacional, os produtos próprios merecem capítulo à parte. Com a Boccati Utilidades, a empresa da Serra gaúcha apresentou ao mundo algo inédito. Era possível apreciar vinhos e outras bebidas de forma elegante, mas muito descontraída. O conceito das taças, copos, champanheiras, coolers e acessórios plásticos coloridos, personalizáveis, trouxe um frescor que não se sabia possível. E democratizou o consumo.
Com a Boccati, vinhos e espumantes passaram a ser degustados em qualquer ocasião: nas praias, nas festas, em eventos corporativos e encontros casuais. Os puristas, pela qualidade dos produtos e pela sacada genial, aderiram; os entrantes se identificaram. Restaurantes, hotéis, bares, casas noturnas ganharam um charme a mais. Afinal, até a Boccati lançar, quem pensava que se poderia ter uma champanheira em forma de banheira? E ice bags que viraram sonho de consumo? Com as cores mais lindas?
Cachaça e Brandy

Para celebrar os 30 anos, a Boccati lançou em parceria com a casa Bucco a Cachaça Especial X Anos, resultado de uma seleção criteriosa de duas barricas de cachaças envelhecidas durante 10 anos em carvalho francês e americano. De visual límpido e brilhante e coloração amarela âmbar intensa, tem aromas que lembram baunilha e especiarias. Harmoniza com charcutaria e queijos, petiscos e charutaria.
Com a Nova Aliança Vinícola Cooperativa, lançou o Brandy Especial 50 Anos, que começou a ser elaborado quando a Boccati sequer existia. Apresenta o envelhecimento lento e gradual de um brandy de contemplação, fruto de uvas Trebbiano das encostas da Serra gaúcha vinificadas na década de 70. Também perfeito para ser acompanhado por um bom charuto, o brandy apresenta aromas e paladar complexo, com textura densa em boca.

As embalagens, outro atributo que diferencia a Boccati, são primorosas, verdadeiros presentes para apreciadores. A cachaça, verdadeira peça de design, vem acompanhada de uma luminária WAF, enquanto o brandy traz duas taças Riedel bar cognac. Ambas têm edição limitada a 300 garrafas.
Estilo de vida

Julio D´Agostini sabe unir negócios e estilo de vida. “A gente tem viajado muito; com a Eduarda morando na Europa vamos muito para lá, como família, sempre procurando unir lazer e conhecimento, buscar novidades; vamos a todas as feiras e geralmente damos uma esticada; também gostamos de estar na casa da praia. Mas o que move mesmo é isso que fazemos todos os dias.”
Ao dizer que gosta muito de agradecer, Julio se revela o líder natural: “Eu digo para a equipe, a única coisa que sei mais que vocês, é a experiência, então me escutem, mas quem está aí no dia a dia são vocês”.
Como forma de engajar, seja nas viagens, seja no dia a dia, Julio incorporou o abraço. “Na nossa última viagem a Itália do Vini Fatti a Mano fomos surpreendentemente bem recebidos, não havia o que podíamos fazer para superar o quanto fizeram por nós – e isso que levamos charutos personalizados, mimos. Então decidi que nosso melhor presente seria um abraço. E incorporamos isso na Boccati. Um abraço, para mim, é algo de sensacional.”
Cobiçado por diferentes empreendedores, que veem no fundador da Boccati o sócio perfeito para tantos negócios e iniciativas, Julio se mostra taxativo. “Não quero; tem gente que me oferece restaurante, que coloca o dinheiro, mas para mim não serve, eu ia quebrar. Eu gosto é de estar aqui, eu sei estar aqui; aqui é meu negócio.”
Saí da Boccati pensando no abraço, no que ele representa e na filosofia de um empresário que poderia ter multiplicado o business em franquias, em restaurantes, em parcerias, mas preferiu multiplicar cultura. Julio D’Agostini entendeu, antes de muitos, que o vinho tem alma. E, por isso, não se vende: se aprimora. E que um negócio só dura quando as pessoas que o sustentam sabem por que estão ali.
