Neste dia 30 de junho se vão 42 anos da morte do meu pai. Faz tempo? Não saberia dizer. A convivência com ele foi pouca – eu tinha 13 anos quando ele desencarnou – mas absolutamente intensa, a ponto de ele saltar de dentro de mim em vários momentos do dia.
A relatividade do tempo é tamanha que há pessoas com quem convivemos muito, e pouco nos dizem. Enquanto há outras, como ele, que vivem pouco, e deixam lembranças, ensinamentos profundos. O mais interessante é que sempre bons. Não lembro do pai com tristeza, tampouco com a sensação de que poderia ter sido diferente. Sempre o tenho em mim na medida do que deveria ser.
Com ele aprendi a gostar das músicas, dos livros, da boa comida, da dança, da conversa. Ele me fazia declamar poemas, corrigia a pronúncia e a impostação. Fazia com que eu lesse em voz alta, pontuando as palavras. Me levava no mercado dos considerados supérfluos, nas conversas com os amigos, me apresentava o mundo. Eu simplesmente adorava esse ritmo todo, que ia da política aos amores com a mesma desenvoltura.
Minha primeira matéria foi assinada com ele. Dos tantos projetos que ele encabeçava, um foi a revista Festuva, alusiva à Festa da Uva. Entrevistamos, em conjunto, um dos melhores amigos dele, o escultor Bruno Segalla, outra figura impagável. Lembro bem dessa cena. O pai ia conduzindo a entrevista e eu, do alto dos meus 11, 12 anos, anotava, ensaiando como ser repórter.
Se teve coisa ruim? É claro que teve – com a mãe mais cinco irmãos, duas ex-mulheres e outros sete filhos, um homem boêmio, jornalista, escritor, radialista, publicitário – tudo isso nas décadas de 70 e 80, com tudo que isso implicava, era natural que por vezes o clima degringolasse.
Nada, no entanto, supera os dias bons, as risadas, a cumplicidade, a minha obrigação de coçar as costas todos os dias depois do almoço.
Para mim não foi pouco, nem foi muito. Foi perfeito.
