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Repertórios

Escrever para ser mais: o ensaio como prática de quem busca crescer

por Miricis By Dani Goulart
30 de julho de 2026
em Inteligência Interior

Havia uma época em que éramos todas fascinadas por diários. Parecia uma bobagem adolescente, escrever como fora o dia, os sentimentos que afloraram no período de 24 horas, os encontros frutíferos ou inúteis, os anseios e alegrias. O fato é que o diário, revisitado como o gênero literário do ensaio, se torna uma arma poderosa para nos entendermos e vivermos melhor.
Para quem vive em modo de alta performance, essa ideia pode soar estranha à primeira vista. Escrever sobre si? Para quê? A resposta, surpreendentemente, é prática: para pensar melhor, decidir com mais clareza e saber, com mais precisão, quem você quer ser.

Afinal, o que é o ensaio?

O gênero, que surgiu no século XVI com Michel de Montaigne, tinha exatamente essa proposta – Essais. Tal como na tradução, ensaio é isso mesmo: uma tentativa, um experimento, um ensaio. Onde o sujeito que escreve tem total liberdade, sem a obrigação de defender uma tese ou mesmo provar uma verdade absoluta. O mundo se apresenta a partir da subjetividade.
A busca pelo ensaio tem razão de ser. Eu o vejo por dois aspectos. O primeiro, por estarmos tão absorvidos pela informação imediata e passageira que, ao nos depararmos com um texto um pouco mais reflexivo, em que o autor apresenta a própria visão de mundo, ele nos conquista. Segundo, porque o ensaio é o gênero ideal para a prática intelectual cotidiana.
Com o ensaio, adquirimos a permissão de não saber. E, ao não saber, nos permitimos mudar. O que, para quem está em posições de liderança e de ter que decidir a todo o momento, é por si encantador. Quando o ensaio se funde com o diário, essa qualidade se intensifica. O diário é o lugar da escrita sem audiência: você escreve para você, sem o peso do julgamento externo. Juntos, os dois gêneros criam uma prática poderosa: a de registrar o que você pensa e, ao registrar, descobrir o que de fato pensa e como agir a partir daí.

Escrever limpa a mente

Existe algo quase físico no ato de colocar pensamentos no papel. Pesquisas nas áreas de psicologia cognitiva e neurociência confirmam o que escritores sabem há milênios: escrever externaliza o pensamento e libera espaço mental. É como fazer uma faxina na cabeça. Há, ainda, profissionais que digam que o escrever à mão, e ainda melhor, a lápis, intensifica esse processo, pela ausência de automatização e possibilidade de edição imediata que a tela oferece.
Para líderes, isso tem implicações diretas. Quando você escreve sobre um problema, uma decisão ou um conflito interno, você não está apenas registrando, está organizando. A mente que antes circulava em loop em torno de uma questão começa, pela escrita, a encontrar uma lógica, uma forma diferente de analisar. E, a partir daí, solução.
O diário-ensaio tem ainda outro efeito: ele desacelera. Em um ritmo de vida acelerado, sentar para escrever é um ato de presença. Você para, respira e presta atenção ao que está acontecendo dentro de você, algo que a agenda raramente permite.

A construção da identidade pelo texto

Quem sou eu? O que quero? Para onde estou indo? Essas perguntas parecem simples, mas raramente são respondidas com honestidade no dia a dia. A rotina as empurra para o fundo da gaveta.
O ensaio as traz de volta à superfície.
Quando escrevemos sobre nossas escolhas, valores, medos e ambições, começamos a traçar um mapa interno. E esse mapa, revisitado ao longo do tempo, revela padrões, evolução, contradições. Tudo aquilo que compõe a identidade de uma pessoa que está, de fato, crescendo.
Virginia Woolf, uma das grandes ensaístas do século XX, dizia que a escrita era a forma de se tornar contemporâneo de si mesmo. Isto é: de estar presente à própria vida, não apenas atravessando-a.
Para quem aspira a ser mais — a liderar com mais consciência, a viver com mais intenção —, essa contemporaneidade consigo mesmo chega a ser um pré-requisito do existir.

Como começar: dicas para quem nunca escreveu para si

A maior barreira para começar a escrever não é a falta de tempo. É o medo de achar que não tem nada a dizer. Ou, pior: o medo de descobrir que há muito mais do que se esperava a ser dito.

Comece pequeno e sem regras.
Não há formato correto para o ensaio pessoal. Uma página por dia, três vezes por semana. tanto faz. O importante é criar regularidade e consistência; o volume é irrelevante.

Escreva, simplesmente.
Lembre-se que ninguém está vendo. O ensaio diário é um contato consigo. Você pode escrever desde as perdas e ganhos do momento, até pensamentos mais interiores. Uma boa tática é se perguntar: hoje, como foi? E a partir daí, escrever.

Escreva na primeira pessoa, sem moderação.
O “eu” não é arrogância no ensaio. É a única perspectiva honesta que você tem. Escreva o que você, especificamente, pensa, sente e observa.

Não edite enquanto escreve.
A autocrítica prematura mata o fluxo. Deixe sair. A revisão vem depois.

Revisite o que escreveu.
O diário-ensaio ganha força quando relido. Você vai se surpreender com quem era há três meses — e, especialmente, com quem tem se tornado.

Escolha um gatilho consistente.
Uma xícara de café pela manhã, os últimos 20 minutos antes de dormir, o intervalo do almoço. A escrita precisa de um ritual para se tornar hábito. É um momento só seu. Desfrute!

Escrever é um ato de liderança
No fim, escrever para si é um ato de liderança sobre a própria vida. É a recusa de deixar que o dia passe sem reflexão. É a escolha de nos perguntarmos, com frequência, se o que fazemos ainda faz sentido.
O ensaio não exige que você seja escritor. Exige apenas que você esteja disposto a pensar. E a registrar esse pensamento com honestidade.

E isso, para quem quer ser mais, é sempre o começo de tudo.

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