Havia uma época em que éramos todas fascinadas por diários. Parecia uma bobagem adolescente, escrever como fora o dia, os sentimentos que afloraram no período de 24 horas, os encontros frutíferos ou inúteis, os anseios e alegrias. O fato é que o diário, revisitado como o gênero literário do ensaio, se torna uma arma poderosa para nos entendermos e vivermos melhor.
Para quem vive em modo de alta performance, essa ideia pode soar estranha à primeira vista. Escrever sobre si? Para quê? A resposta, surpreendentemente, é prática: para pensar melhor, decidir com mais clareza e saber, com mais precisão, quem você quer ser.

Afinal, o que é o ensaio?
O gênero, que surgiu no século XVI com Michel de Montaigne, tinha exatamente essa proposta – Essais. Tal como na tradução, ensaio é isso mesmo: uma tentativa, um experimento, um ensaio. Onde o sujeito que escreve tem total liberdade, sem a obrigação de defender uma tese ou mesmo provar uma verdade absoluta. O mundo se apresenta a partir da subjetividade.
A busca pelo ensaio tem razão de ser. Eu o vejo por dois aspectos. O primeiro, por estarmos tão absorvidos pela informação imediata e passageira que, ao nos depararmos com um texto um pouco mais reflexivo, em que o autor apresenta a própria visão de mundo, ele nos conquista. Segundo, porque o ensaio é o gênero ideal para a prática intelectual cotidiana.
Com o ensaio, adquirimos a permissão de não saber. E, ao não saber, nos permitimos mudar. O que, para quem está em posições de liderança e de ter que decidir a todo o momento, é por si encantador. Quando o ensaio se funde com o diário, essa qualidade se intensifica. O diário é o lugar da escrita sem audiência: você escreve para você, sem o peso do julgamento externo. Juntos, os dois gêneros criam uma prática poderosa: a de registrar o que você pensa e, ao registrar, descobrir o que de fato pensa e como agir a partir daí.
Escrever limpa a mente
Existe algo quase físico no ato de colocar pensamentos no papel. Pesquisas nas áreas de psicologia cognitiva e neurociência confirmam o que escritores sabem há milênios: escrever externaliza o pensamento e libera espaço mental. É como fazer uma faxina na cabeça. Há, ainda, profissionais que digam que o escrever à mão, e ainda melhor, a lápis, intensifica esse processo, pela ausência de automatização e possibilidade de edição imediata que a tela oferece.
Para líderes, isso tem implicações diretas. Quando você escreve sobre um problema, uma decisão ou um conflito interno, você não está apenas registrando, está organizando. A mente que antes circulava em loop em torno de uma questão começa, pela escrita, a encontrar uma lógica, uma forma diferente de analisar. E, a partir daí, solução.
O diário-ensaio tem ainda outro efeito: ele desacelera. Em um ritmo de vida acelerado, sentar para escrever é um ato de presença. Você para, respira e presta atenção ao que está acontecendo dentro de você, algo que a agenda raramente permite.
A construção da identidade pelo texto
Quem sou eu? O que quero? Para onde estou indo? Essas perguntas parecem simples, mas raramente são respondidas com honestidade no dia a dia. A rotina as empurra para o fundo da gaveta.
O ensaio as traz de volta à superfície.
Quando escrevemos sobre nossas escolhas, valores, medos e ambições, começamos a traçar um mapa interno. E esse mapa, revisitado ao longo do tempo, revela padrões, evolução, contradições. Tudo aquilo que compõe a identidade de uma pessoa que está, de fato, crescendo.
Virginia Woolf, uma das grandes ensaístas do século XX, dizia que a escrita era a forma de se tornar contemporâneo de si mesmo. Isto é: de estar presente à própria vida, não apenas atravessando-a.
Para quem aspira a ser mais — a liderar com mais consciência, a viver com mais intenção —, essa contemporaneidade consigo mesmo chega a ser um pré-requisito do existir.
Como começar: dicas para quem nunca escreveu para si
A maior barreira para começar a escrever não é a falta de tempo. É o medo de achar que não tem nada a dizer. Ou, pior: o medo de descobrir que há muito mais do que se esperava a ser dito.
Comece pequeno e sem regras.
Não há formato correto para o ensaio pessoal. Uma página por dia, três vezes por semana. tanto faz. O importante é criar regularidade e consistência; o volume é irrelevante.
Escreva, simplesmente.
Lembre-se que ninguém está vendo. O ensaio diário é um contato consigo. Você pode escrever desde as perdas e ganhos do momento, até pensamentos mais interiores. Uma boa tática é se perguntar: hoje, como foi? E a partir daí, escrever.
Escreva na primeira pessoa, sem moderação.
O “eu” não é arrogância no ensaio. É a única perspectiva honesta que você tem. Escreva o que você, especificamente, pensa, sente e observa.
Não edite enquanto escreve.
A autocrítica prematura mata o fluxo. Deixe sair. A revisão vem depois.
Revisite o que escreveu.
O diário-ensaio ganha força quando relido. Você vai se surpreender com quem era há três meses — e, especialmente, com quem tem se tornado.
Escolha um gatilho consistente.
Uma xícara de café pela manhã, os últimos 20 minutos antes de dormir, o intervalo do almoço. A escrita precisa de um ritual para se tornar hábito. É um momento só seu. Desfrute!
Escrever é um ato de liderança
No fim, escrever para si é um ato de liderança sobre a própria vida. É a recusa de deixar que o dia passe sem reflexão. É a escolha de nos perguntarmos, com frequência, se o que fazemos ainda faz sentido.
O ensaio não exige que você seja escritor. Exige apenas que você esteja disposto a pensar. E a registrar esse pensamento com honestidade.
E isso, para quem quer ser mais, é sempre o começo de tudo.
